Novas cenas familiares

Novas cenas familiares

Houve um tempo em que as famílias se organizavam pelas condições reais do mundo e da natureza nos quais estavam inseridas.

Fazia frio demais ou era muito quente. Moravam em montanhas ou na beira de rios.

Moravam isoladas de outros núcleos ou eram uma comunidade maior.

Essas eram as prerrogativas principais que regiam o cotidianos das relações.

Quais eram as necessidades e quais as prioridades daquelas pessoas que viviam em família?

E, a partir destas indagações, as famílias iam criando rotinas e hábitos de convivência.

Neste tempo existia equidade de gênero. Não com esse nome, mas existia.

Neste tempo existia diálogo e democracia. Todos, idosos, adultos e crianças, eram ouvidos e qualificados.

Existiam grandes conversas e se tinha grandes espaços de tempo para isso.

Mas com a Revolução Industrial, a Revolução Burguesa e o advento da sociedade consumista, o mundo ficou ansioso. E as leis passaram a surgir do medo.

Medo de não conseguir controlar a vida, as máquinas, o cotidiano.

Medo de não conseguir controlar seus bens, seus filhos, seu patrimônio.

Aqui então entra na história a figura dos Especialistas: pensadores, políticos, religiosos, pesquisadores, na tentativa de ensinar as pessoas a viver e conviver neste novo tempo.

Eles mostraram o caminho do enriquecimento, o caminho do controle dos bens e da família.

Mostraram também o caminho da pobreza e do mundo binário, dividido em dois.

Eles ditaram as novas regras de um mundo que, em breve, perderia toda a conexão com o sentir e ligaria o botar do ter.

Assim, surgem Especialistas para tudo.

As mulheres – que neste momento da historia estavam submetidas ao poder patriarcal – são treinadas para serem excelentes donas de casa e educadoras de filhos.

Mas elas vão além: vão à luta por direitos iguais. Surgem as Feministas.

Surgem os Sociólogos, os Antropólogos, os Psicólogos, os Psiquiatras, os Pedagogos, os Sexólogos, os Fonoaudiólogos, e tantos outros. Ufa!

Cada um tentando ensinar a família a ser normal. Ou melhor, dizendo como viver dentro do que o mundo havia estabelecido como “normal”para as famílias depois da Revolução Industrial.

É claro que esse modelo baseado no que vem de fora quebrou, não durou muito, e resultou em muitas consequências negativas para o que consideramos hoje FAMÍLIA.

O processo histórico caminha e, com ele, vêm sempre novas mudanças, boas e ruins.

E o que definimos hoje como Família está bem longe do modelo pregado de normalidade das décadas passadas.

Família são pessoas que convivem junto, com laços de consanguinidade ou não, onde todos estão envolvidos no bem estar e no crescimento comum.

Família não tem um modelo pronto a seguir, felizmente. Cada uma vai ter que construir o seu.

E a forma de construir este modelo está no próprio processo de ir caminhando, dialogando, aprendendo, errando e re-aprendendo com cada um de seus membros e em cada situação que se apresenta.

Será necessário parar para ver o que se sente, o que se quer, em um mundo que oferece pluralidades de modelos e escolhas.

Será necessário ter suas escolhas como únicas, diferentes de cada uma das outras famílias que convivemos.

Sim, porque somos todos diferentes, então precisamos de modelos totalmente diversos. Não cabem mais modelos únicos impostos.

É aqui que percebemos as angústias das famílias dos mundo de hoje. Exatamente neste ponto.

Entre o velho modelo que não cabe mais, está ultrapassado, e o novo, que a gente ainda estranha, ainda não sabe usar, mas deseja.

Dentro de nós somos muitos, não somos um eu único. Teremos sempre antagonismos e paradoxos.

Que se refletem nas famílias de hoje, às vezes tão violentas, às vezes tão permissivas.

Às vezes tão porto seguro, as vezes tão areia movediça.

Como lidar com este momento tão conflituoso dentro das novas configurações familiares?

Fugindo do modelo dos ESPECIALISTAS E SUAS RECEITAS PRONTAS, me vem à mente uma imagem: um parto domiciliar programado com a presença de todos os membros da família.

Uma nova Cena Familiar reinventada pelas próprias famílias, a partir de seus recursos, gerados no diálogo. Uma competência resgatada, de fazer o parto de seus novos membros, com o mínimo de interferência possível dos Especialistas.

As grandes respostas estão sempre na observação do processo histórico, que vem sempre de volta.

Antigas famílias sentadas em círculo, respeitando, observando e ouvindo os sinais da natureza, conversando em diálogos democráticos como a única saída para o crescimento humano.

Telma Lenzi

Maio/2014

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