Venha

Venha

Emocionante texto de Augusto Napier sobre o poder dos ensinamentos terapêuticos  e a importância da terapia familiar.

É uma manhã fria, fora dos padrões de temperatura, no final de abril, uma chuva fina está caindo enquanto eu ando em direção ao restaurante do hotel, lotado com aquecidos habitantes de Wisconsin pretendendo tomar café da manhã. Vindo em minha direção saindo da fila do buffet está um jovem rapaz cuja postura e presença me surpreendem: ele tem cabelo preto bem cortado rente à cabeça, ombros fortes, arredondados, um maxilar quadrado. “Carl com 25 anos”, eu penso comigo mesmo. Ele é Jason Whitaker-Emrich, neto de Carl, prestes a sentar para o café da manhã com sua família. Eu digo olá; Jason sorri e, com um gesto que é ao mesmo tempo restrito e entusiástico, me convida para juntar-me a ele. Eu recuso educadamente – a família deles teve o suficiente dos amigos, treinados e protegidos de Carl, ontem no funeral e na recepção longa, graciosa na casa de Whitaker, no Pine Lake, o lugar onde Carl e Muriel coordenavam suas “reuniões de família”, onde ele teve seu derrame e onde aproximadamente 50 de nós passamos mais de duas horas no dia anterior contando as estórias de Carl.

O gesto de Jason, um aceno compacto, a nível da cintura com a mão estendida em direção a si próprio, dizendo “Venha”, imediatamente me recordo o convite que Carl oferecia muitas vezes quando eu aparecia na porta de seu consultório imaginando se ele estava pronto para mim e para a família que nós iríamos ver juntos, ou apenas para fazer uma pergunta. Era um gesto que ele estendia para muitos de nós.

Alguns de nós ficaram um longo período, acumulando um grande débito e tinham dificuldades em partir; outros vinham para um Workshop ou dois ou dez; alguns eram supervisionados ou tratados por ele durante anos. Personalidades fortes prenunciam fortes respostas; algumas vezes as pessoas saiam dos Workshops de Carl indignadas ou fugiam da terapia ofendidas e magoadas. Muitas pessoas eram ajudadas e ensinadas por esse homem duro, elusivo, corajosamente criativo e apaixonado; muitos de nós o amavam.

Eu fui o primeiro, e provavelmente sempre serei, paciente de Carl: com 22 anos em Atlanta em 1961, recém saído da faculdade com pouca noção de quem eu era ou queria ser e muito deprimido. Um filho pródigo que fracassou em seu primeiro emprego, posso ver agora que eu vim para casa para tentar conectar com meu pai alcoolista, que estava próximo de morrer. Foi minha mãe quem procurou um terapeuta para mim, e quem encontrou Carl.

A partir do primeiro momento do contato de minha família com ele, Carl foi duro: ele não me veria a não ser que minha família viesse na primeira sessão; ele desafiou os comentários depreciativos de meu pai sobre terapia. “Aha”, eu pensei. “Alguém pode se levantar frente a ele”. No caminho para casa meu pai disse, “Nós precisamos de um terapeuta na residência”. Mas Carl, que não tinha ainda se lançado a ser um terapeuta familiar, elegeu me ver individualmente.

Cercado pelo desprezo lacrimoso da vida falida de meu pai, eu tinha encontrado uma rocha. Onde meu pai tinha sido ausente fisicamente ou emocionalmente, Carl parecia solidamente plantado em sua cadeira, e emocionalmente aberto a qualquer coisa que eu trouxesse para ele. Ele não se mexeu para me “ajudar” de qualquer modo evidente, mas ele me viu claramente, rapidamente, inteligentemente. No rosto da solidez de uma rocha de Carl, eu regressei para sonhos vívidos, raiva e tristeza de perda intensa. Foi como mergulhar em um redemoinho de água, e o redemoinho era eu.

Para o meu grande alívio, nada do que eu experimentei parecia surpreender ou enervar Carl. Não apenas já tinha visto, mas ele acreditava que eu estava envolvido com ele em um processo natural que tinha sua própria legitimidade intuitiva. No começo da terapia, por exemplo, eu sonhei comigo mesmo em duas partes, uma cabeça muito viva e rosada, separada de um corpo frio como um cadáver. “Um diagnóstico muito bom de seu dilema”, Carl disse, dando importância ao fato, se referindo a organização da minha vida em torno do intelecto.

Aquela parecia ser a abordagem: eu trazia para ele episódios da minha vida – incluindo uma porção de sonhos e ele reagia. Algumas vezes ele estabelecia um limite  (“ Sua raiva é saudável, mas não a dirija para mim”); algumas vezes ele oferecia uma interpretação bem direta, frequentemente aprovando e me ajudando a ver minha própria força e poder. Eu estava algumas vezes em uma jornada assustadora – mas geralmente excitante – em minha própria consciência e tinha um guia esperto, forte, carinhoso. Saber que ele estava lá me permitiu tentar coisas que eu nunca tentaria arriscar sem ele.

Um ano dentro da terapia, meu pai morreu. O homem que eu tinha tentado que substituísse o lugar de meu pai, agora me sustentava através de um período de luto, muito breve e intenso. Eu sempre verei o rosto de Carl durante aquelas semanas: amplamente aberto, gentil, me abraçando com seus olhos. Nós trabalhamos isso. Eu morava sozinho, e comecei a construir minha vida adulta. Margaret, minha futura esposa, e eu reatamos e decidimos nos casar. Eu estava fisgado por este processo fascinante de terapia e  decidi ir para a faculdade de psicologia. Por volta do mesmo período, foi oferecido a Carl um emprego em Wisconsin. Prematuramente, eu acho, minha terapia terminou, tinha durado apenas menos de quatro anos.

Três anos mais tarde, em 1968, eu vim para a escola de medicina da Universidade de Wisconsin como um interno em psicologia; Carl estava então trabalhando duro para ajudar a inventar o campo da terapia de família. Eu posso vê-lo agora na cadeira de balanço em seu consultório no quarto andar: os ombros fortes, arredondados, as mãos grandes, o maxilar ressaltado e os olhos de coruja. Carl sempre teve um tipo de enraizamento primordial no momento; uma presença de “você-não-pode-me-tirar-do-chão” que eu associava com seu crescimento de menino de fazenda. Em retrospecto, eu posso ver a coragem enorme que ele precisou para ter famílias como pacientes em meados dos anos 60, particularmente a forma como os atendeu – a família inteira, incluindo avós, tios e tias, com freqüência confrontando-os, apesar do alicerce de amor e respeito por eles.

Ele me acenava e me chamava, não apenas para me ensinar terapia familiar, mas também para ajudá-lo. Carl nunca disfarçava sua necessidade de ajuda, e aqueles entre nós que trabalhavam de perto com ele estavam conscientes desta influência para ajudá-lo a escrever, apresentar e fazer terapia também. Carl estava sempre lutando para responder as exigências do momento não havia qualquer plano, ele o criava a medida que seguia, e aqueles de nós que se envolveram com ele lutaram para acompanhar.

Carl uma vez disse: “minha abordagem à terapia é estabelecer uma estrutura e dizer o que eu penso”. Quando a família chegava, Carl conduzia. Ele chamava as pessoas para falar, as interrompia, zombava, derrubava pequenas granadas de mão de insights que algumas vezes não explodiam por meses, ensinava, proibia, brincava com as crianças, mantinha todos fora de equilíbrio. Ambos os lados de seu celebro estavam completamente ligados. Ele ouvia um bocado: nuances de confissões que conduziam a segredos, pequenas vozes de desespero, tons de provocação, tropeções da língua, inconsistências verbais. Ele também via profundamente: onde as pessoas sentavam, sombras de expressão facial, rugas, acenos, lágrimas simultâneas, gestos fugazes. Um residente uma vez disse: “Ele é um verdadeiro ecologista. Ele poupa e usa tudo”.

Carl acreditava profundamente no processo natural da família – que eles estavam conectados em alguma coisa criativa e excitante que começava quando duas pessoas casavam uma com a outra e começavam a misturar suas lealdades à duas famílias competidoras de origem. Ele acreditava que sua angústia era apenas potencial humano represado. Ele se esforçava para ouvir e ver o que os estava segurando para que ele pudesse ajudá-los a derrubar ou afrouxar isto e pudessem continuar. Algumas vezes ele “patologizava” coisas que a família pensava que eram saudáveis, como ser prestativo, por exemplo: “Talvez se você parasse de agir como o pai de sua esposa, ela iria querer ir mais para cama com você”.

Ele também normalizava o que a família achava que era patológico como, comportamento adolescente “insolente”: “Seu filho ama a família dele o suficiente para que esteja querendo roubar o carro e ir para cadeia para que vocês parem de brigar”. “Sua filha esta brigando com você, mãe, para tentar ensinar seu marido a brigar com você”. Carl sabia que a família com freqüência tinha falta de coragem e esperança, e ligando-se com um membro corajosos da família, ele tentava ajudá-los a encontrar um pouco de ambas.

Carl tornou uma “posição controlada no seu eu” firmemente definida com as famílias que poderia soar e ser sentida como indiferente e distante, mas não era. Quando ele dizia, “Eu não sei o que você deveria fazer, eu não sou esperto o suficiente para dizer a você isso”, vinha de um respeito pela própria habilidade da família de tomar decisões. Ele dizia, “Eu não tenho nada para lhe ensinar”, e significava, “Isto é real demais e complexo para respostas didáticas, nós temos que vivenciar isto juntos”. Algumas vezes parecia que ele não se importava com a resolução do tratamento, ou se as famílias voltariam ou não. Era mais do que ele estava dizendo e modelando, “Você tem uma escolha de mudar ou não, de voltar ou não. Se você não gosta do que está acontecendo aqui (ou em sua vida), a porta está lá”.

Carl odiava pretensão – ele só estava interessado no que realmente estava ocorrendo na família, não na atividade social deles ou no conceito intelectual sobre eles próprios. O pai era realmente um tirano que intimidava a todos? A mãe realmente amava seu marido? O verdadeiro marido da esposa era o filho, e a filha mais nova era a mãe da família? Carl acreditava que encarar a verdade sobre eles mesmo era a tarefa mais difícil da família, e que chegar aquela verdade requeria do terapeuta o desempenho de um tipo de cirurgia radical; enquanto a mente do terapeuta podia ser a faca, o coração dele era o anestésico que tornava possível a operação.

Eu me lembro vividamente de uma entrevista de consulta que ele fez uma vez com uma família em Chicago – a mãe, viúva recentemente, seus três filhos praticamente adultos, o filho de dezenove anos estava depressivo. Carl os deixou falar superficialmente por um tempo sobre os problemas do filho, então ele disse, “A coisa estranha é que nós estivemos falando por 20 minutos, e ninguém disse uma palavra sobre o fato mais importante sobre a família”. Silêncio. “Que esta é uma família que perdeu recentemente seu pai”. A mãe e Carl começaram a falar sobre o antigo marido dela e sobre o seu casamento. O pai tinha sido um homem passivo, silencioso; ela tinha que carregar muitas das obrigações da família. Tornou-se claro que ela estava feliz que ele estava morto, e finalmente Carl disse, “Eu imagino que talvez você não o amasse mais, e que você está feliz que ele se foi”. Notavelmente, estas palavras quase brutas foram ditas com uma ternura e estima que tocaram a viúva. Depois de uma pausa, ela disse, pensativamente, “Bem, eu acho que você está certo”. A filha mais velha, que tinha sido particularmente ligada a seu pai, estava em lágrimas; o filho, que não tinha conseguido chorar a morte de seu pai, também estava chorando. A verdade era triste, mas era real, e escutá-la sendo dita alta era estranhamente aliviadora.

Carl trabalhava particularmente bem com famílias rigidamente emaranhadas, onde ele adorava introduzir sua marca sedutora do caos. Ele sempre estava promovendo a ideia de mudanças de papéis: os adultos deveriam se tornar as crianças, as crianças se tornar os adultos. Com casais trancados em si, ele desafiaria os homens a serem mais como as mulheres e ousaria as mulheres a se tornarem mais como os homens. Ele adorava falar com crianças – inclusive as suas próprias, eu soube – sobre um bom tempo atrás quando ele tinha sido uma menininha.

Eu acho que ele apreciava tratar famílias rígidas porque ele tinha crescido com muita rigidez. Ele me contou uma estória uma vez sobre trabalhar com seu pai em um projeto na fazenda quando ele era adolescente. Enquanto martelava um prego, Carl bateu seu polegar e disse, “merda!” O pai dele não falou com ele durante o resto do dia; depois na mesa do jantar, ele disse rigorosamente, “Não teria sido tão ruim, senão tivesse soado tão espontâneo”.

Carl também admirava a dureza na linhagem masculina de sua família. Muitos de nós o ouvimos descrever a escultura de aço abstrata que estava pendurada na parede de seu consultório como “ os ossos grudados juntos de meu avô”. Então ele contava a estória de como seu avô teve gangrena no dedão do pé, e cortou fora o dedo ofensivo com seu canivete. Em um campo e mundo sem pais verdadeiramente suficientes, Carl encorporava uma forte paternidade.

Enquanto é tentador lembrar de Carl através de seus “vapores-únicos” corajosos e suas entrevistas de consulta intensas, o homem que eu vi em tratamento de longa duração com famílias, frequentemente deixava seu posto como “pai/mãe simbólico” e fazia alguma conexão profunda de “pai/mãe verdadeiro” com seus clientes. Eu uma vez falei com o pai da família “Brice”, que está retratada no The Family Crucible (“O Crisol da família”) sobre uma sessão na qual seu filho, que era arrogante e fora de controle, tinha lutado e sido derrubado no chão por Carl, literalmente. Com lágrima no olhos, o pai disse: “Eu tinha desistido de tentar controlar Don, e Carl sabia disto. Eu ainda estou impressionado que ele estava disposto a arriscar este nível de envolvimento por meu filho e minha família”.

E ainda assim Carl recusava em deixar as famílias manipulá-lo para tomar o controle e assumir à frente, a direção. Se eles tentavam passar a responsabilidade para ele, ele a empurrava de volta algumas vezes fingindo ser alguém que não podia ajudar. “Eu não posso fazer nada a não ser que vocês consigam os dois casais avós e os tragam aqui”. Ele sabia muito sobre resistência, e era fascinante observa-lo jogar com isso. Para um marido que via a si próprio como um mártir sem “self”, ele dizia; “Talvez se você estivesse desejando se tornar um alcoolista, sua esposa parasse de beber. Você não está disponível para fazer este tipo de sacrifício? Eu pensei que você faria qualquer coisa para ajudá-la!”

Muito antes de alguém pensar em colocar o terapeuta carinhoso na sala de consulta com uma equipe mais cética e paradoxal atrás do espelho unidirecional, Carl um homem – contingente de tal maneira, operando com charme, e uma virtuosidade de língua-na-bochecha “(língua solta)” para frente e para trás por uma grande variedade de possibilidades que os pacientes se recusavam a reconhecer. Para uma mulher que não conseguia parar de tentar possuir seu marido, ele dizia, “Eu não acho que você estava fazendo quase que o suficiente para tentar alcançá-lo. E se você trouxesse café-na-cama pela manhã? E se o seguisse por todos os lugares em casa? E se você fosse ao escritório dele; talvez você o pudesse ver durante os intervalos?” Durante todo o tempo que ela estava protestando que isso era pedir demais  “Por que você não esta querendo fazer essas coisas? Você está cansada de possuí-lo? Não desista agora. Talvez você possa alcançá-lo. Além do que, pense do quanto ele vai se sentir rejeitado se você parar de persegui-lo”.

Carl não era esperançoso sobre a resolução meticulosa dos problemas. Ele via toda a vida humana como uma dialética entre coisas “irresolvíveis”: entre a necessidade de estar juntos e a necessidade de estar separados; entre as exigências conflitantes das duas famílias de origem;  entre feminino e masculino; entre mente e coração. Ele via a terapia como uma forma de definir o conflito mais claramente, e de ajudar as pessoas a negociar seus caminhos através de suas escolhas difíceis.

À medida em que envelheceu e amadureceu, a província de Carl se tornou menos a família que ele tratava e mais a família dos terapeutas que ele tentava nutrir, apoiar e colocar potência. Seus workshops eram sessões de filosofia existencial onde o poder da presença de Carl trazia as pessoas de volta e as deixava fascinadas, e onde muitos finalmente conseguiram ver seu relacionamento de co-terapia mais profundo – com sua esposa, Muriel. Ele continuava dizendo aos terapeutas, muitas e muitas vezes, em uma variedade de maneiras, “Não faça disso um emprego, seja alguém”. “Não pare de ser completamente humano”, ele parecia estar dizendo, “especialmente quando você está com pacientes”.

Eu perdi a maior parte dos últimos 10 anos da vida de Carl. Nosso relacionamento teve que desempenhar sua própria dialética.

Eu tinha trabalhado com Carl em Wisconsin por uma década, a princípio como um estudante cheio de adoração, depois, como eu mudei para outro departamento na Universidade e comecei a prática particular, fui aumentando como um colega júnior. Mas sua influência em minha vida continuou imensa. Quando nós escrevemos juntos, mesmo que algumas das idéias fossem minhas eles me faziam sentir que eram dele, e foram vistas como dele. Quando eu fazia Workshop, eu estava ensinando a abordagem de Whitaker. Um psiquiatra de Madison uma vez me apresentou para um colega como “Carl Whitaker Júnior”. Meu débito com Carl me fez muito zeloso para continuar sua proposta. A sombra ao redor desta árvore enorme era muito profunda para eu continuar a crescer – a não ser que eu mudasse para longe. Carl e eu não nomeamos o dilema mas o reconhecemos, e Carl uma vez disse tristemente que ele sabia que nós provavelmente não podíamos continuar a trabalhar juntos. À medida que eu me aproximava dos 40, eu senti um ímpeto poderoso de deixar Madison, e Carl.

À medida em que eu me preparei para me mudar, Carl e eu fracassamos em lidar diretamente um com o outro sobre nossos sentimentos. Eu estava rebelde e, em muitos Workshops que nós fizemos juntos mais tarde, publicamente desafiante. Nós dois lidamos com isso mal: eu o magoei, ele me magoou.

Nós dois, Carl e eu, fizemos esforços para reconectar algumas cartas, poucos telefonemas; mas nada parecia ajudar. Um pouco antes de seu derrame, eu o vi na AAMFT (Associação Americana de Terapia de Casal e de Família) em Miami e eu escrevi um bilhete para ele. Mais tarde ele veio atrás de mim no restaurante do hotel e me surpreendeu com um grande abraço. Nós falamos um pouco aí, mas não o suficiente.

O derrame de Carl foi devastador, seguido por pneumonia, depois um segundo derrame que o deixou em grande parte sem fala. Durante o último ano e meio de sua vida, ele quase morreu diversas vezes. Sua luta para viver foi verdadeiramente heróica, motivada, eu acho, pelo seu desejo de mais tempo para dizer seus adeuses.

Muitos de nós vieram para Nashotah e foram bem recebidos graciosamente por Muriel. Lá ele estava, o patriarca curtido pelo tempo, impedido em uma cadeira de rodas e tanque de oxigênio, rodeado por amor familiar. Muriel fez um jantar maravilhoso; Carl sentou a mesa com Muriel como intérprete; nós demos conta de alguma conversa social. Mais tarde, eu disse a ele o quanto eu o amava e o quanto eu era grato por tudo que ele tinha dado. Ele pode me dizer algumas poucas palavras de volta.

Aí era hora de ir. Ele estava sentado na beirada de sua cama de hospital, a enfermeira tinha deixado o quarto para nos dar um tempo juntos. Nós sabíamos que não iríamos nos ver de novo.

Ele poderia ter deitado, mas apenas sentou lá, olhando para mim de uma maneira que carregarei comigo para sempre. Sua expressão era a que ele me ofereceu quando meu pai morreu: aberta, amorosa, profundamente cheia de compaixão. Aquele momento foi um presente composto, deliberado para mim; eu sei que ele o tinha planejado. Sentar lá com ele, eu sentia não apenas amor, mas admiração profunda pela força ainda imensa de sua presença. Aleijado como estava, encarando a morte, ele ainda podia dar e dar poderosamente. Eu me senti como uma criancinha dizendo adeus ao meu pai, e agora eu me dou conta que eu também finalmente tive minha última entrevista com meu terapeuta na qual ele abençoou minha partida.

 Carl Withaker não nos deixou uma teoria elaborada ou uma escola disciplinada da terapia. Ele deixou sim alguns escritos muito impressionantes e uma gravação de virtuosidade e poder terapêutico. Ele também deixou um grande grupo de terapeutas que se sentem profundamente em débito com ele, das duas formas, pessoalmente e profissionalmente. Apesar de ele ser brilhante, o que ele nos deu não foi apenas riquezas intelectuais, mas um modelo de prática e permissão para desenvolver nossas próprias pessoas, especialmente a medida que trabalhamos. Ele viveu seu próprio ensinamento: se arrisque, seja corajoso, se divirta, viva completamente. a vida é curta, se atire nela.

Onde a árvore caiu, o céu parece muito maior.

NAPIER, Augusto. VENHA! Tradução do artigo publicado originalmente em ‘The Family Therapy’ Network, julho/agosto, 1995, pg 60-62, USA.

 *Augusto Y. Napier, PH.D, é o diretor da “Family Workshop”, 752 Houston Mill Road, N.E., Atlanta, GA 30329.

Tradução: Letícia Rauen Delpizzo

Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*