Vício alimentar – Atualizando crenças limitadoras sobre alimentação

Vício alimentar – Atualizando crenças limitadoras sobre alimentação

Uma das lembranças boas da infância era tirar o miolo da ponta do baguete, encher de açúcar branco e saborear como um sorvete. E, nessa mistura de afetos, experiências e alimentação, o doce sempre esteve presente como um presente, uma recompensa na minha trajetória. Pelo menos eu o significava assim.

 

Cada qual viveu sua história e seu significados. Cada um guarda em si, retratos, memórias, tradições e signos que transformam o ato de se alimentar em uma coordenação complexa, íntima e singular.

Dificilmente comemos para nutrir o corpo em suas necessidades e só. Buscamos nutrir também emoções. Buscamos manter nossos padrões e identidades historicamente construídas.

Quilos a mais, quilos a menos.

Não validamos as vozes da ditadura do corpo perfeito. Interessa a quem essa verdade cultural tão propagada?

Longe de um padrão medido por uma tabela que não inclui singularidades, o seu peso ideal, o seu corpo ideal, os seu contornos ideais precisam ser ditados por você.

Vou compartilhar como reconstrui a minha relação com o meu Vício Alimentar.

Ao longo dos últimos 20 anos, acumulei perto de 20 quilos.

“Ah! Isso é normal. Todos ganham peso na maturidade! Difícil perder peso depois de uma certa idade!”

Essas falas não faziam sentido pra mim. O que fazia sentido é que eu não me reconhecia em meu contorno de então. Eu queria entender melhor a minha forma de me alimentar. Tinha algo que me intrigava e fui atrás de mim. 

O que fez sentido para mim:

  • Auto conhecimento
  • Conhecimento
  • Comunidade onde sustento minhas identidades

Comia na correria, na rua, sem muita consciência e qualidade e sabia que precisava mudar. Mas não sabia por onde.

Iniciei pelas compras de produtos de melhor qualidade, quando possível orgânicos, meu primeiro auto cuidado.

Mas não sabia e não gostava de cozinhar. Minha cozinha não me convidava a estar nela. Era o último cômodo do apartamento, virada de costa para tudo.

Arrisquei uma reforma sem muito saber se ajudaria a mudar meus hábitos ou se ficaria de enfeite. Ajudou.

Cozinhar de frente pra sala, olhando o mar ou o por do sol é sempre muito prazeroso.

Fiz um curso de culinária, que mexeu de dentro, revirou crenças e reforçou o auto amor no nutrir-se.

Comecei a frequentar mensalmente uma nutricionista buscando conhecimento. Este compromisso me manteve comprometida comigo, com o meu propósito.

Conhecimento do meu funcionamento metabólico e o que o meu corpo precisava. E conhecimento prático de produtos, ingredientes, receitas, suplementos, atividade física.

Pecinhas que foram montando um quebra cabeça abandonado. Meu olhar estava profundamente atento a mim, meus sentimentos e vontades, meus progressos em relação ao tema alimentar-se bem e consciente.

Mas o doce era a minha armadilha.

Difícil de abrir mão tinha um apelo forte de recompensa, satisfação alta e uma história presente em toda a vida.

Meu significado mais útil, até então, era que me recompensava pelo excesso de trabalho,  pelo cansaço.

Quando estava cansada eu comia alguma coisa doce ao invés de ir descansar.

Tentei descansar mais, trabalhar menos, mas não é assim simples, porque envolve outra rede complexa, a satisfação que tenho no trabalho.

Trabalhar muito é dignificante (crença pessoal).

Então comer um docinho, muitos docinhos para recompensar era internamente muito bem tolerado, em meus acordos e diálogos internos.

Tinha coerências antagônicas, e a compreensão não era suficiente para desestabilizar a matriz que gerou o significado dos excessos de doces. Em outras palavras, entendia mas nada mudava.

Um dia em aula, comentei com uma estudante o meu prazer com os doces e o mecanismo de compensação para o meu cansaço. Ao expressar o comentário utilizei, sem querer, a palavra Vício ao invés de Recompensa. E ao me escutar, abri um outro itinerário interno, um outro significado e compreensão, uma outra paisagem interna. 

Ah! A linguagem não é inocente. As palavras tem poder!

A linguagem nos prende e nos liberta. Somos nos limite da nossa linguagem!

Contei para mim que usava o açúcar como vício para sustentar minha rotina de vida. Sim, um vício. Tão sério como o alcoolismo, vindo do mesmo lugar: da cana-de-açúcar. Esta linguagem mudou tudo.

Ter sobrecarga de trabalho é dignificante. Ter um vício é desonroso.  Falou meu General Interno.

Concordei e senti a força da mudança de significado interno em mim.

E mudou minha relação com o doce. Agora posso saboreá-lo com moderação,  pelo prazer e não pelo excesso do vício.

Mudou tudo.

Minha alimentação, minha forma de descansar, meu peso, meu corpo, sem fórmula mágica, com novos significados internos. Dentro de um processo de recompor cada importante peça que fazia sentido para mim.

Queria finalizar reforçando a importância da comunidade.

Nossos diálogos internos saturam se não temos com quem trocar. Algumas vezes só precisamos de alguém que nos escute para podermos escutar a nós mesmos. Precisamos de pessoas para conversar que validam nossas identidades construindo juntos novas verdades mais úteis.

Não conseguiremos implementar mudanças significativas em nossas vidas se o contexto em que vivemos não suplementar nossas ações.

Eu agradeço a todos que fizeram parte dessa reconstrução de mim.

E você? Falar de mim sobre esse tema, chega até aí? Qual a sua relação com a alimentação?

Se tem algo que lhe incomoda sobre alimentar-se busque suas histórias. Busque o seu conhecimento sobre você.

Essa é uma jornada bem pessoal para transformar, dissolver ou reconstruir uma coordenação entre o alimento e os afetos que o envolve.

Não existe um certo caminho a seguir. Não existe generalizações porque somos únicos.

Posso falar de um caminho, o meu caminho e minha intenção é somente inspirar você a procurar o seu.

O final de cada episódio de superação vale todo o processo de buscar-se.

 

Telma Lenzi | 23 maio 2020

 

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