O pai da Bela

O pai da Bela

Bela foi criada só pelo pai.

Não sei bem o motivo, mas sei que foi muito especial esta relação de pai e filha.

Sua educação foi muito diferente daquela do contexto em que viviam.

Seu pai também era um homem diferente. Sensível, inventivo. Independente e livre do ideal masculino de sua comunidade, não se preocupava por ser considerado louco, por todos.

Nem sei se percebia a pressão que vinha em sua direção. Talvez não, porque ele se preocupava em seguir o seu desejo interno, suas idéias e não os padrões externos. Vivia suas emoções e sua racionalidade.

Ele era um inventor e a comunidade o considerava desajustado.

Muitas vezes quando queremos seguir nossos desejos e nosso coração, o mundo externo faz pressão contrária. Cabe a cada um a escolha de ceder ou não.

O pai da Bela deu a ela um modelo diferente de ser pai, de ser homem e de ser mulher. Sendo que o modelo deste contexto era Gaston.

Gaston era muito forte fisicamente. Invejado pelos homens, arrancava suspiros de todas as mulheres, menos de Bela que o achava primitivo e convencido.

Desde pequeno Gaston foi desafiado a provar e manter sua masculinidade. Tinha que ser muito forte e agressivo, não ter medo de nada e ser competente no sexo. Aprendeu que para ser macho não podia ter ou mostrar emoções. Precisava aniquilar seu lado emocional.

Nossa! Ser homem requeria um esforço sobre-humano.

Como defesa contra a ansiedade que essa exigência provocava, e para encobrir o sentimento de inferioridade por não ser possível alcançar o tal ideal masculino, Gaston e os homens daquela comunidade desenvolveram armaduras pessoais.

Sabemos que, quanto maior a armadura, mais intensa é a emocionalidade que ela esconde.

Mas Gaston cortejava Bela. A única mocinha da comunidade que não dava bola para ele. Que não reforçava seu modelo de machão patriarcal.

Bela foi criada por um pai pós-moderno. Ele acreditava que as pessoas, independente do gênero tinham o mesmo valor. A relação com a filha era de simetria e harmonia.

O pai da Bela incentivava suas potencialidades sem diferenciar o gênero: coisas para homens e coisas para mulheres. Desta forma seu gosto por leituras foi valorizado e incentivado.

O pai da Bela, amoroso, respeitava seu jeito de ser e suas escolhas. Não exigindo dela cumprir o caminho do modelo social feminino: reprimir sua intelectualidade e procurar um marido forte para casar, que lhe desse o sustento e filhos para criar.

O pai da Bela se mostrou por inteiro. Podia ser também fraco, dócil , indeciso, dependendo do momento e das circunstâncias. Não tinha vergonha de mostrar suas emoções, chorar, ficar triste e aceitar seus próprios fracassos.

Naturalmente os dois, Bela e seu pai,  eram considerados muito esquisitos por não seguirem o modelo social vigente. Culminando com a revolta da comunidade para internar este pai em um manicômio por ser considerado insano.

O caminho natural de Bela, a partir da relação com seu pai, foi desejar se relacionar com homens que pudessem ser inteiros também, que assim como ela não mais precisassem reprimir vários aspectos da sua personalidade.

Desta forma, ao ter que conviver com a Fera em seu castelo,  não aceitou como verdade sua armadura. Questionou seu modelo patriarcal, seus sentimentos e sua gentileza reprimida. Exigiu ser tratada com respeito e simetria, tratando-o desta mesma forma.

Buscou o que viveu e significou como amor, em seu modelo familiar, conseguindo estabelecer uma relação de duas pessoas inteiras: um homem autorizado à viver com emoção e razão e uma mulher  com o mesmo direito a ser inteira.

A mudança na história da humanidade começa nestas escolhas, de como estamos vivendo na parentalidade e na conjugalidade.  E o futuro das relações sem violência virá com o fim das relações hierarquizadas do modelo patriarcal.

Que tipo de pai quero ser eu?

Que tipo de educação dar a nossos filhos, meninos e meninas?

O que estamos fazendo hoje como pais?

 

Telma Lenzi | Agosto de 2013

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