A terapia vai p’ra praça

A terapia vai p’ra praça

Percorro o cenário das terapias na nossa cidade há quase 40 anos.

Desde jovem paciente, depois cliente de várias abordagens que contribuíram no meu contínuo processo de tornar-me.

Me aproximei e me apaixonei pelo Psicodrama, depois pela Linha Analítica das terapias com crianças até sentir seus limites em mim e no contexto onde eu as exercia.

Meu encontro com a Teoria Sistêmica (1987) me expandiu e apresentava um novo movimento.

Atender casais, famílias ou simplesmente uma pessoa olhando para o contexto onde ela estava inserida mudou meu olhar do interno das pessoas para suas relações, do individualismo a pensar que as pessoas viviam em relacionamentos. Causou críticas e desconfiança na comunidade. E como toda mudança social, foi absorvida.

Na década de 90,  o projeto cultural tradicional moderno foi drasticamente alterado.

As mídias sociais, internet e o uso dos celulares, foram absorvidos na rotina cotidiana das vidas e dos relacionamentos. Os efeitos da globalização e da informatização assustaram e grandes reflexões sobre estas transformações tomaram seu curso e propuseram novos caminhos.

As práticas de terapia que mantinham o discurso dos padrões morais a serviço do controle social, reproduzindo terapeutas especialistas na cura do paciente, são questionadas e acontece a virada Pós-moderna (final do século XX). Uma proposta para terapias como prática social transformadora, que deve ser compreendida a partir dos contextos locais.

Mudam as terapias, mudam os terapeutas.

O convite da perspectiva pós-moderna, fala da humildade na construção do conhecimento com o cliente em trocas colaborativas dos saberes. O cliente é o especialista em seu viver.

O terapeuta percebe o contexto sócio histórico que mobiliza as pessoas e os motivos que as fazem buscar a terapia. E sente e vive os mesmos efeitos deste contexto que também é seu.

Eu logo aceitei este convite para este novo movimento: a virada pós-moderna. Me sentia à vontade no caminho da auto reflexividade e das relações igualitárias.

Tornar-se público como pessoa, não só como terapeuta especialista, mas com direito a meus pré conceitos, sentimentos, valores, contradições e opções ideológicas me deixou mais livre. Percebi a ampliação de minha prática clínica passando pela ampliação da minha subjetividade.

Não somos mais nós que temos que nos adaptar às teorias. São as teorias que precisam se adaptar às transformações sócio culturais e respeitar quem somos em nossas singularidades.Não são mais as diferenças entre as pessoas vistas como um problema. Agora são vistas como recursos que criam possibilidades.

A partir do paradigma da pós-modernidade, do construcionismo social, várias abordagens se constituem abrindo mão do poder especializado, de mostrar resultados positivos ou perseguir a cura de sintomas. Caminhei por elas, com aproximações, gratidões e escolhas possíveis.

Neste terceiro movimento me encontro hoje: nas práticas colaborativas-dialógicas. Aqui me sinto à vontade com minhas singularidades e minha subjetividade.

Seja qual for o seu contexto, trabalho ou situação de vida, sua subjetividade influenciará a escolha de um fazer ou um estar.

O profissional pós-moderno deve se perguntar como sua prática e a teoria que a fundamenta podem influenciar positivamente a vida das pessoas que o procuram, diante da inegável responsabilidade de ser co-construtor de subjetividades e co-autor de histórias na clínica.

Minha subjetividade dialoga com algumas sensibilidades desta prática.

  1. Não se faz terapia. Se está com o outro neste espaço terapêutico.
  2. A terapia é um acontecimento linguístico e o terapeuta é responsável por criar um espaço dialógico que facilite a exploração de novos sentidos.
  3. Não há distinção do que somos como pessoa e como profissional.
  4. Foca no diálogo e percebe a terapia como conversação em que o terapeuta (em atitude de não saber) e cliente (como especialista) coproduzem novos significados, narrativas e realidades.
  5. No diálogo, novos significados estão constantemente sujeitos a emergir, devido à natureza transformadora da linguagem.
  6. Não busca alcançar um fim específico, mas estar em diálogos generativos.
  7. O expert em sua vida é o cliente. Não conhecemos uma pessoa pelo que ela apresenta.
  8. Cada encontro terapêutico é único. Não repetimos porque não somos os mesmos.
  9. Não podemos instruir, colocar uma ideia na mente da outra pessoa. Aprender é interacional.
  10. O self deixa de ser único e essencialista e passa a ser dialógico com múltiplas vozes, os Personagens Internos.
  11. Diálogos se sustentam e continuam após as conversações terapêuticas. Sejam internamente com os Personagens Internos, seja externamente com outras pessoas.
  12. Diagnósticos, rótulos, definições, explicações e sugestões reduzem a complexidade da pessoa.
  13. Cada um significa de um jeito. Perguntar os significados amplia o diálogo.
  14. As práticas colaborativas-dialógicas não se restringem aos Psicólogos. São convites para ações com escuta genuinamente respeitosa e diálogos generativos.
  15. Encontros dialógicos com presença radical, não precisam de um enquadre. Podem acontecer no espaço terapêutico e em qualquer outro lugar ou relacionamento.

Fica o convite de Harlene Anderson, criadora da abordagem, para ampliarmos estas práticas para além do espaço físico dos nossos consultórios, da terapia e de nossas comunidade imediatas.

O mundo seria um lugar mais respeitoso se estivéssemos em colaboração e diálogo nos diversos contextos de nossa vida cotidiana. No intervalo do café, na intimidade dos relacionamentos afetivos, nas reuniões de trabalho ou comunidades, em sala de aula, nos gestos de solidariedade e sororidade, em conversações transformadoras nos bancos da praça.

Vem pra praça!

Telma Lenzi

Setembro 2018

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